Autor: Carlos Almeida Junior

Miami Vice e a vastidão dos espelhos

Em 1984, estreava na rede NBC norte-americana a série Miami Vice, criada por Anthony Yerkovich e pelo cineasta Michael Mann. Por trás do figurino exuberante dos personagens, da trilha sonora pop-rock, das locações exóticas, da Miami ensolarada, da fotografia de contrastes e de certo exagero típico da década de 80, havia uma série que lidava com o lado sombrio do sonho americano. Considerada por muitos um show “neo-noir”, na verdade o seriado atualizava temas do cinema noir (faltam-lhe características essenciais do “neo-noir” para que seja classificada como tal, o que não é o tema deste texto).

Miami Vice 1984

Raymond Borde e Étienne Chaumeton (Towards a definition of film noir, 1955) destacam que “os filmes do ciclo noir (1939-1950) ocasionam um estado de tensão no espectador, pois todos os seus pontos de referência psicológica são removidos”: vemos personagens falhos e ambíguos, detetives que caminham entre a luz e a escuridão; ninguém é confiável; tudo é cinzento e incerto. As histórias transcorrem sob uma atmosfera de pesadelo, embora filmadas com tomadas realistas (na maioria das vezes). Os protagonistas dos filmes noir se encontram alienados de qualquer ordem social ou moral, tornam-se solitariamente auto-dependentes, e perseguem, a todo custo – como ato de redenção – uma espécie de autenticidade, a partir do que a realidade (fluida e opaca) pode lhes oferecer. Sucesso de público, o show se estendeu por 5 temporadas, até 1989.

Eis que, em 2006, Michael Mann, refinado cineasta de primeiro calibre, mentor criativo da série, lançou nos cinemas um filme dirigido e escrito por ele, batizado de Miami Vice, com Colin Farrell e Jamie Foxx personificando os detetives Sonny Crockett e Ricardo Tubbs.

Miami Vice 2006

Poucas pessoas perceberam que a semente do filme estava num episódio da primeira temporada do seriado, chamado “Smuggler´s blues”.

Há um diálogo esclarecedor logo nos primeiros episódios da série de 1984, em que a personagem Gina pergunta à Sonny: “você se esquece de quem você é?”, ao que ele responde, “meu bem, às vezes eu me lembro de quem eu sou”. E as primeiras palavras que aparecem no roteiro original do filme de 2006 são estas:

“FADE IN: EXT. OCEAN – CLOSE UP: WATER – MORNING LIGHT
We are at the delicate interface between ocean and air…liquid and gas…the event horizon where molecules evaporate. This interchange is ethereal.”
(“Estamos na delicada interface entre oceano e ar … líquido e gás … o horizonte de eventos em que as moléculas evaporam. Esse intercâmbio é etéreo.”)

Michael Mann

Michael Mann

 

No filme Miami Vice (como na série, e em quase todos os filmes de Michael Mann), os temas estão vinculados ao subtexto das identidades artificiais, intercambiáveis, imateriais, sustentáveis provisoriamente somente pelo sacrifício da realidade. Qual o preço a ser pago?

 

 

 

 

 

1) Batalha constante contra um mundo de vícios, sem virtudes: a cada vez que o detetive recebe missão para trabalhar disfarçado, para se infiltrar em alguma organização criminosa, há a possibilidade (renovada) de que ele possa permanecer naquele mundo sombrio; é necessário que o “heroísmo apadrinhe vícios postiços” (T.S.Eliot); com a resolução do dilema, ao final, a decisão de abraçar a lei é reafirmada. Entretanto, o detetive sabe que deverá lidar com as mesmas tentações (em outra oportunidade, ou em outra missão), das quais não consegue antever se sairá ileso novamente. Não por acaso, logo no começo do filme, um dos policiais infiltrados é filmado pelos colegas levando sua “atuação” como criminoso às últimas consequências…A música de abertura de Miami Vice (2006) é Numb, dos Linkin Park, que significa “entorpecimento“. Ao sondar o abismo por muito tempo, a possibilidade de despencar nele, entorpecido, é grande.

club scene

2) Conflito entre realidade e simulação: os personagens de Michael Mann são definidos (e se expressam) pelo trabalho que fazem; viver a vida sob disfarce, para se infiltrar e passar despercebido, requer a criação de um mundo fictício que seja capaz de reproduzir a realidade, mas que se torna, ao longo do tempo, indistinguível dessa realidade. Os limites entre real e ficção são intercambiáveis, pois durante o dia o detetive se torna criminoso, lida com indivíduos da pior espécie, e à noite ele volta para casa. A simulação da realidade funciona como escudo, como proteção – o detetive disfarçado não pode ser descoberto, pois isso significa o seu fim. Portanto, o disfarce também é um modo de colocar a morte sob jugo, de escapar da contingência pelo planejamento detalhado (casualidades não podem acontecer) e por meio do controle de toda tecnologia – por essa razão, os personagens de Michael Mann são tão fascinados por ela (muitos aparatos se tornam extensões de seus disfarces). Todos os passos precisam ser específicos, detalhados, antecipados, a fim de assegurar que o inimigo não descubra quem ele é. Seu disfarce precisa ser autêntico. Tais requisitos possibilitam que sua vida disfarçada seja mais flexível a adaptações, quando imprevistos acontecerem. O corolário é que a verdadeira autenticidade, para o detetive, que é dominar cada pequeno detalhe de seu trabalho, cada informação falsificada, apesar de engendrar uma aparente vida autêntica, na verdade o aliena, o distancia cada vez mais da realidade.

Michael Mann nos apresenta intrusões de realidade nos contrapontos entre planos distintos: no primeiro plano, a imagem nítida e, ao fundo, tudo está desfocado, indiferente, distante. O real somente ganha contornos de nitidez quando o personagem o reconhece, ali presente, e descola o foco de si mesmo. As abstrações visuais da câmera de Michael Mann nos apresentam esse mundo inapreensível, fugidio, submerso pela vida (ilusória) que levamos.

backdraft

backdraft2

3) A melancolia a partir das experiências dos “não-lugares”: o antropólogo Marc Augé (Não lugares – introdução a uma antropologia da supermodernindade, 2016) define os “não-lugares” como espaços sem identidades, prometidos à individualidade solitária, à passagem, ao provisório; são espaços nos quais não há experiência de relação com o mundo real. São constituídos por paisagens das quais o protagonista tem somente visões parciais, pequenos e transitórios vislumbres de uma realidade que está fora de seu alcance. Os “não-lugares” propiciam certa experiência particular de solidão – a experiência daquele que, “diante de uma paisagem que é obrigado a contemplar e que não pode contemplar integralmente, tira da consciência dessa atitude um prazer raro e, às vezes, melancólico. Trata-se de evocação profética de espaço, onde nem a identidade, nem a relação, nem a história fazem sentido, onde a solidão é sentida como esvaziamento da individualidade, onde só o movimento das imagens deixa entrever, por instantes, a hipótese de um passado e a possibilidade de um futuro.” A experiência dos “não-lugares” aparece em vários outros filmes de Michael Mann – ver abaixo (Inimigos Públicos, BlackHat, etc.), e é realçada pelo uso de câmera digital.

 

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Miami Vice, 2006

 

 

Inimigos Públicos, 2009

BlackHat, 2015

4) Papel redentor da mulher: a personagem feminina funciona como rota de escape para o protagonista alienado; ela surge como possibilidade de transcendência, uma eventual reintegração da identidade do protagonista, em um outro lugar, em um outro ambiente, com valores morais estáveis; entretanto, isso nunca se consuma: o protagonista raramente se mostra capaz de se vincular ao possível mundo de segurança oferecido por ela. Nesse sentido, ela é mais um ideal do que uma realidade alcançável.

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5) Vastidão dos espelhos: os problemas se intensificam quando o detetive encontra dificuldades para distinguir o real da simulação do real:

Miami Vice doubt

O mundo real se torna (ainda mais) obscurecido, pois sobre ele recaem os inúmeros reflexos lançados pelas simulações. Quando as máscaras caem, e o disfarce é finalmente revelado, a melancolia do personagem decorre de sua percepção de que a realidade, esse pano de fundo vasto e indiferente, é sempre implacável, e não se pode controlá-la, domá-la ou dobrá-la, como se num sonho, e nem se escapa às contingências (“time is luck”).

Isabella: Once I had a fortune, it said: “Live now. Life is short. Time is luck.
Det. James ‘Sonny’ Crockett: You got assets somewhere? Insurance?
Isabella: Why?
Det. James ‘Sonny’ Crockett: Things go wrong. The odds catch up. Probability is like gravity: you cannot negotiate with gravity. One day. . .one day you should just cash out, you know? Just cash out and get out.
Isabella: Yeah?
Det. James ‘Sonny’ Crockett: Yeah. As far and as fast as you can.
Isabella: Would you find me?
Det. James ‘Sonny’ Crockett: Yes, I would.”

Crockett-and-Isabella-2006

ending

O detetive percebe que “enrijeceu seu corpo numa casa de aluguel” (de novo, T.S.Eliot). É necessário, de algum modo, reencontrar seu lugar nesta realidade desconhecida. Onde encontrar a luz novamente?

ending

 

As Humanidades na formação médica

Este é o texto integral da versão que foi publicada no jornal A Gazeta do Povo

“A medicina está em convulsão hoje porque a sociedade também está convulsionando” (Edmund D. Pellegrino, 1969)

Debates sobre a precariedade da saúde pública inevitavelmente resvalam para a necessidade da humanização. Reivindicação justa, apesar de apresentada quase sempre sob retórica propagandística, como “meta diferenciada a ser alcançada em programas de controle de qualidade hospitalar”. Em conformidade com o imaginário tupiniquim de que problemas se resolvem com mais leis, a formação humanística do estudante de medicina já está determinada no capítulo III, artigo 29, da resolução que instituiu as Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Graduação em Medicina: “(a estrutura do curso de graduação em medicina deve) incluir dimensões ética e humanística, desenvolvendo, no aluno, atitudes e valores orientados para a cidadania ativa multicultural e para os direitos humanos”. Eis o contexto para o surgimento de uma disciplina denominada Humanidades Médicas, cujo objetivo é incluir, na graduação, tópicos relacionados à literatura, filosofia e artes. A desumanização dos profissionais de saúde tem sido atribuída a diversos fatores, os mais frequentemente mencionados são: sobrecarga de trabalho, baixa remuneração, interface tecnológica entre paciente e médico, “judicialização” da saúde, reducionismo biomédico (que enxerga a doença mas não o doente). Neste ponto, precisamos invocar o famoso personagem do escritor britânico G.K. Chesterton, padre Brown, que, em determinado momento do conto The point of a pin, diz: “não é que eles não conseguem encontrar uma solução. É que eles não conseguem ver qual é o problema.” (The scandal of father Brown, Penguin Classics, 2014). Se quisermos ultrapassar demagogias e diretrizes burocráticas para confrontarmos o real problema, primeiramente é necessário retomarmos o conceito de “humanismo”.

 

O termo latino Humanitas refere-se ao ideal de educação e formação plena do homem para além de qualquer utilidade prática, com base nas “artes liberais”. De acordo com Edmund Pellegrino, médico especialista em bioética, falecido em 2013 – nome pouquíssimo conhecido no Brasil, infelizmente – humanismo em medicina é um ideal educacional para a formação plena do médico, composto por dois elementos: cognitivo – que lidaria com o médico sob a perspectiva de um ser cultural, alguém possuidor de ideias, valores e modos de expressão – e afetivo – relacionado com a atenção e os sentimentos do médico em relação à condição existencial do indivíduo que está doente; ambos os elementos deveriam ser erigidos sobre base técnica competente – sem destreza, o médico humanista é inautêntico (Edmund Pellegrino, Educating the humanist physician – an ancient ideal reconsidered, The Jornal of the American Medical Association, 1974). Entretanto, a crise que se abate sobre as Humanidades está diretamente implicada na gênese de três mal-estares presentes na cultura, descritos pelo filósofo canadense Charles Taylor (As fontes do self – a construção da identidade moderna, edições Loyola, 1997 e A ética da autenticidade, editora É Realizações, 2011), e que impossibilitam justamente a elaboração cabal da imagem do homem perante a si e aos outros: o individualismo, a primazia da razão instrumental e a perda da liberdade. Por outras palavras: as ciências humanas tem contribuído ativamente para a elaboração de uma imagem desumanizada do homem, em razão da contaminação político-ideológica que é diretamente proporcional ao menosprezo pela herança humanista:

         “Educar significa formar lideranças, agentes de mudanças, homens e mulheres dispostos a assumir riscos para construir uma vida melhor. (Jacques Marcovitch, Os desafios da área de Humanidades no Brasil e no mundo, revista Estudos Avançados, volume 16, nº 46, 2002).

 

         “A humanização surge, na história mais recente da Saúde no país, sob a forma de movimentos políticos e ideológicos para a transformação da cultura e da prática profissional em uma perspectiva interativa”. (Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea, Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, editora UNESP, 2012, pág. 46)

 

A depreciação das religiões tradicionais, a valorização da vida voltada a si e o louvor a certa espiritualidade difusa, desprovida de significado (porque capaz de comportar qualquer definição que se queira dar) amputaram o homem de vínculos com uma realidade que o transcende. A estrutura da realidade, para o medieval, articulava-se pela unidade de Bem, Belo e Verdadeiro; atualmente, o “Verdadeiro” encontra-se em descrédito e Bem e Belo desintegraram-se em princípios autônomos. Conforme descreveu Martim Vasques da Cunha (A Poeira da Glória, editora Companhia das letras, 2015), a realidade, regida exclusivamente pelo princípio do Belo, se apresenta sob perspectiva estética – onde o que importa é a aparência. O real, visto como obra de arte, permite que cada indivíduo seja livre para modelar-se como bem entender:

         “O século XX foi um período de profundo rompimento com as tradições, e a busca dos tesouros deixados entre as névoas desse passado rompido concorreu para que as instituições legitimadoras – entre elas a médica – empreendesse a invenção de suas tradições (…)”. André Mota, no prefácio do livro Humanização e humanidades em medicina – a formação médica na cultura contemporânea (Izabel Cristina Rios e Lilia Blima Schraiber, ed. UNESP, 2012).

 

A emancipação da vontade perante qualquer horizonte moral transcendente, que funcionava como quadro de referências capaz de dar significado espiritual à vida, emparedou a liberdade para agir sob o jugo da necessidade de satisfazer veleidades transitórias a qualquer custo. Desprovido de configurações capazes de atribuir sentido para práticas morais, o homem se tornou a medida de todas as coisas. Critérios para distinções qualitativas sobre certo ou errado não são mais vistos como necessários. Sob égide individualista, as ciências humanas apregoam que fatos inexistem objetivamente, são construídos conforme interesses contingentes. E, se o conhecimento é convenção social, a verdade é convenção sociológica. Valores são reverenciados como equivalentes no altar da isonomia, emoldurado pelo politicamente correto:

         “Ser capaz de relativizar sobre os conhecimentos e as práticas em medicina, reconhecendo diferentes discursos, “verdades” e saberes”. Objetivos terminais da área de Humanidades no ensino médico de graduação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (http://medicina.fm.usp.br/cedem/hum/disciplinas.php).

 

O ensimesmamento frutífero, vinculado ao cultivo saudável da vida interior, perverteu-se em autoindulgência empenhada no prazer imediato. A percepção estética da realidade se reflete no rebaixamento das artes: ou servem exclusivamente à apreciação sensorial do mundo ou são instrumentalizadas para o desenvolvimento de uma “consciência social”, que discrimina a sociedade em vítimas ou opressores. Os elementos formadores da cultura do Ocidente, que deveriam ser preservados, são repudiados como arbitrários, elitistas, racistas, sexistas.

Sem configurações morais, a ética das virtudes (preocupação com o “viver bem”, com o que é valioso por si mesmo e digno de admiração) se transforma numa ética da eficiência (preocupação em determinar os princípios para a ação, de modo a “maximizar” os resultados). Dada a inexistência de fatos na realidade “manifesta” (para usar os termos do filósofo norte-americano Wilfrid Sellars – Philosophy and the scientific image of man, Ridgeview publishing digital, 2012), conforme propagado pelas ciências humanas, configura-se a ideia de que as verdades objetivas devem ser obtidas pelas ciências naturais, e a perspectiva moderna passa a privilegiar a “imagem científica” da realidade como única capaz de fornecer sentido existencial. A pressão pela eficiência resulta no que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han denominou de “sociedade do esgotamento”: o desaparecimento do universo moral transcendente, em vez de conduzir à liberdade, conduz à liberdade coercitiva de uma sociedade disciplinar na qual somos, simultaneamente, prisioneiros e vigias, e cujas exigências por desempenho resultam em cansaço (Byung-Chul Han, Sociedade do cansaço, editora Vozes, 2010).

 

Harmonizados, os elementos cognitivo e afetivo, necessários ao ideal de humanismo em medicina, permitiriam ao médico “não apenas compreender a sua ciência, mas também identificar-se com a humanidade daqueles a quem ele serve” (Edmund Pellegrino, From medical ethics to a moral philosophy of the professionals, Notre Dame Press, 2011). Resta saber se as Humanidades serão capazes de abandonar seu arcabouço ideológico e retomar a vocação para o estudo, a preservação e o legado do repositório de conhecimento e moral sobre o qual o Ocidente foi constituído, e auxiliar na difícil e nobre missão de formar o profissional médico como ser humano pleno e tecnicamente habilidoso.

2016: o ano da volta dos que não foram (ou: o ano que insiste em não terminar)

“Mediocridade é um termo severo para aplicarmos a nós mesmos; contudo, vejo que se ajusta tão bem `a minha pessoa que me é impossível não me apodar de medíocre – embora compreenda, no preciso momento em que o faço, que só quando estiver velha e caduca é que me resignarei a esse epíteto. Resignar-me a ele, parece-me, seria resignar-me `a Desesperança. Deve haver algum meio de os naturalmente medíocres escaparem `a mediocridade. Esse meio é seguramente a Graça. Deve haver alguma forma de lhe escapar, mesmo quando estamos abaixo desse nível. Talvez percebermos que estamos abaixo desse nível seja um primeiro passo. Digo que se ajusta bem `a minha pessoa; mas a verdade é que sou abaixo de medíocre. Andarei sempre aos tombos entre a Desesperança e a Soberba, encarando primeiro uma e depois a outra, avaliando qual delas me faz sobressair mais, qual delas me faz sentir mais confortável, mais descontraída. Nunca engolirei um grande naco de nada. Hei de mordiscar nervosamente aqui e além. O temor a Deus é uma coisa boa; mas, meu Deus, não é este nervosismo. É algo colossal, grandioso, magnânimo. Tem de ser um júbilo. Todas as virtudes tem de ser vigorosas. A virtude tem de ser a única coisa vigorosa nas nossas vidas.”

Flannery O’Connor, Um diário de preces, 06/11/1946

 

Livros:

A imaginação totalitária – os perigos da política como esperança, Francisco Razzo:

“A experiência religiosa, tanto do indivíduo quanto da comunidade, perdeu qualquer sentido teológico profundo a ponto de não passar de mera convenção social (…) O homem moderno arreligioso assume uma nova situação existencial, ou seja, uma situação que abre espaço para a produção de um imaginário redentor no próprio ato de se fechar para a transcendência. (…) O imaginário totalitário tem a pretensão de resolver o problema da estiagem espiritual na qual se encontra o homem em uma era secular.”

Experimentos contra a realidade – o destino da cultura na pós-modernidade, Roger Kimball:

“O Iluminismo procurou emancipar o homem libertando a razão e lutando contra a superstição. Revelou-se, contudo, que, quando a razão é totalmente libertada da tradição – o que também significa libertá-la completamente de todo e qualquer reconhecimento daquilo que a transcende -, a razão torna-se rancorosa e insolente; em suma, torna-se algo irracional (…) Quando o racionalismo iluminista se volta contra a tradição que deu origem a ele, degenera-se numa força destruidora da cultura e das várias diretrizes que a cultura nos legou.”

 

Não com um estrondo, mas com um gemido – a política e a cultura do declínio, Theodore Dalrymple:

“ Não nos impressiona o fato de o caráter dos britânicos ter se alterado, de sua vigorosa independência ter sido substituída pela passividade, pelas lamúrias ou até mesmo, nas camadas mais baixas da sociedade, por um ressentimento rabugento, motivado pela sensação de que o suficiente ainda não foi nem está sendo feito em favor deles. Para os que se encontram em posição inferior o dinheiro que recebem se assemelha a uma mesada, ao dinheiro que as crianças ganham de seus pais e que é reservado `a satisfação de seus caprichos, Como resultado, eles se infantilizam. Quando se comportam irresponsavelmente – abandonando seus filhos, por exemplo, sempre que se tornam pais -, é porque as recompensas pelo comportamento responsável e as penas pelo comportamento irresponsável não existem mais. Essas pessoas acabam por viver num limbo no qual nada há que possam esperar e almejar nem temer e perder.”

Vibrant paradoxes, Bishop Robert Barron:

“How many people – especially Young people – today would casually hold that the determination of ethical rectitude is largely if not exclusively the prerogative of the individual? That’s the fruit of eating of the tree of the knowledge of good and evil. Just after the fall, the first humans realized that they were naked and sought to cover themselves. I would interpret this not so much as shame but as deep and preoccupying self-consciousness. When we acknowledge that goodness and the value lie outside ourselves, in the objective order, we look outward, forgetting the self; but when we are convinced that our own freedom is the source of value, we tend to turn inward, protective and fearfully.”

Os invernos da ilha, Rodrigo Duarte Garcia:

“Eu lia e relia aqueles versos e estava realmente impressionado. A mim, pareciam conter uma profunda esperança em face da finitude humana, as imagens fortes dessa consciência de que a tarde se esgota, enquanto o inverno é uma promessa destinada `a conversão das trevas em luz.” (…)

“Eu gostava das aulas. (…) elas eram diferentes. Talvez porque o senhor não seja daqui, veio de longe. Esse sotaque esquisito. Desculpa…Não, não é isso. É o que o senhor diz. Acho que faz a gente se sentir como se fosse uma coisa, assim, uma coisa maior. De fazer parte, sabe?

– Fazer parte?

– É, que agente pode morar nessa ilha pequena, trabalhar de pescador, do que for, mas tem todo um outro mundo, enorme. E que dá para imaginar esse mundo, as paisagens que ninguém nunca viu, a gente com que ninguém nunca falou. Fazer tudo isso um pouco nosso, também. E abrir um monte de possibilidades diferentes. (…) Meu pai e minha mãe não tem ideia do que seja isso, muito menos a Viviana. Acho que os meus amigos também não. Eu estou falando meio atropelado, mas o senhor entende? Essas coisas fazem a gente se sentir menos sozinho. E não é ruim, não.”

 

Filmes:

 

Knight of cups (Cavaleiro de copas), Terrence Malick: a história, contada por meio de imagens assombrosas, de peregrinação numa terra desolada (ambição, promessas falsas, amores fáceis), entorpecida e fascinada por si mesma, em busca desta pérola, a “Divina Presença” esquecida (em nós, ao nosso redor)

The Witch (A Bruxa), Robert Eggers: a linguagem e a rigorosa ambientação do século XVII permitiram a criação de uma estética do horror adequada e assustadora e que nos mostram a sedução (gradual e insistente) do Mal.

Almost Holy, Steve Hoover: Nassim Taleb escreveu: “At no point in history have so many non-risk-takers, that is, those with no personal exposure, exerted so much control”. Idealismo, pacifismo e as utopias mataram o conceito de honra no Ocidente; colocar a honra (e a reputação) em palavras e ações requer uma coragem quase sobrenatural, nestes tempos covardes. Eis o filme que é o “anti-exemplo” desta nossa época entupida de pessoas que falam e falam, exigem sacrifícios alheios, mas não assumem quaisquer consequências por suas próprias ações.

Captain America – Civil War, Joe e Anthony Russo: ser livre implica assumir responsabilidade por todas as nossas ações; a experiência da responsabilidade será mais intensa se pudermos estabelecer vínculos entre aquilo que fizemos e suas razões, em obediência ao nosso “fundo insubornável”; quem sabe, com isso, poderemos extrair algo estável e que nos servirá de referência em meio ao caos.

 

Discos:

Leonard Cohen, “You want it darker”

 

 

Sturgill Simpson, “A sailor’s guide to Earth”

 

Metallica, “Hardwired…to self destruct”

 

Gojira, “Magma”

 

Nick Cave and the Bad Seeds, “Skeleton tree”

 

Brian Fallon, “Painkillers”

 

 

Séries:

 

Homeland

 

Daredevil

 

 

The night of

 

 

Game of thrones

 

 

The walking dead

Aborto

Um embrião é pessoa ou coisa? Não basta dizer que é somente um “amontoado de células” porque…não somos todos?
Não precisamos recorrer `a religião para pensar sobre o assunto, podemos considera-lo em termos “laicos”. Abortar (ou não abortar) é uma escolha, uma ação. Toda ação depende de crenças. Crenças são horizontes possíveis da expectativa de uma ação (Stephen Tolmin). A partir da crença A, moldo minhas ações de modo B: “Hoje é feriado, se o mercado estiver aberto farei compras, caso contrário deixarei para amanhã”.
Dito de outro modo: acreditar em uma proposição significa moldar deliberadamente a ação em conformidade com essa proposição. Mesmo aquele que duvida de tudo acredita em algo: que nada é crível.
Quando olhamos para um edifício, podemos encontrar suas bases de sustentação; podemos igualmente tentar apreender os fundamentos lógicos que formam o arcabouço de justificativas para as ações: pois, a partir de determinados fundamentos, formulamos horizontes de ações coerentes.
Há duas crenças básicas sobre as quais o abortista erige sua argumentação.
A primeira é a de que o embrião é desprovido de valor intrínseco. A segunda é a de que o embrião é desprovido de valor relativamente `a autonomia da mulher. A partir de uma ou de outra premissa, a extirpação do embrião pode ser justificada da mesma forma que se joga fora a casca de uma banana. Pela primeira crença, nega-se ao embrião estatuto moral; pela segunda, o embrião é visto como paciente moral cujas exigências ou necessidades são, no entanto, limitadas pela soberania da mulher e o destino de seu corpo. Para ambos os casos, a plena imoralidade, que caracteriza o ato de matar uma pessoa, não se estende ao amontoado de células que se desenvolve dentro do útero.
Ao não reconhecer o valor intrínseco do embrião – portanto, ao não reconhecer sua humanidade -, o abortista o iguala a coisas; cascas de bananas não exibem valores por si mesmas. Para sustentar a primeira crença, o abortista alega que os métodos científicos atuais são (e provavelmente sempre serão) incapazes de validar os atributos que asseguram uma natureza humana; sob essa perspectiva, o abortista ignora que a distinção entre aquilo que é humano e o que não é não é da alçada da ciência, mas da antropologia filosófica. Partindo desse pressuposto, o abortista transforma a questão da humanidade do embrião em mera “aposta”.
Ao reconhecer que o valor do embrião está subjugado `a vontade da mulher – “meu corpo, minhas regras” -, o abortista evidencia seu encarceramento espiritual na ilusão de autonomia total, no menosprezo a tudo aquilo que contraria suas vontades. A liberdade individual desestruturada – porque incapaz de reconhecer a existência de uma hierarquia de virtudes – confunde-se apenas com soberania para escolher.
Pensar acerca do que vem a ser a natureza humana, a partir de uma antropologia de circunstâncias, deduzida das duas crenças mencionadas, apequena-se (acovarda-se?) como mera declaração de direitos.

That´s art

A crítica de cinema séria tem resvalado para duas categorias. A crítica estética, que procura autenticar a reivindicação do cinema para uma posição de equivalência entre as artes tradicionais; é uma crítica centralizada nos aspectos técnicos, que enfatiza as qualidades formais do meio e a “autoconsciência” do artista de cinema. E a crítica sociológica, que minimiza ou ignora os elementos estéticos e prioriza a avaliação dos filmes como indicadores de psicologia de massa, ao exercitar juízos de valor não aos filmes em si, mas à veracidade com que refletem fatos sociais.(…) É preciso dizer que tais abordagens negligenciam um aspecto fundamental do cinema, um fato que é ao mesmo tempo estético e sociológico mas também é algo além disso: a experiência imediata de assistir a um filme e responder a ele, como a maioria de nós o faz. Um crítico pode ampliar seu escopo de referências até o limite em que ele puder sustentar, mas me parece quase autoevidente que ele deveria começar com o simples reconhecimento de sua relação com aquilo que ele critica; no centro de toda crítica verdadeiramente bem-sucedida há, sempre, um homem que lê um livro, um homem que assiste a um filme, um homem que olha para um quadro.(…) O crítico sociológico não vai ao cinema, ele pretende investigar um fenômeno social ou psicológico – algo que envolve “outras pessoas”. O crítico estético, por outro lado, pode até estar disposto a reconhecer sua relação com a obra que critica – mas somente após transformá-la em objeto (pois o que ele busca nos filmes é somente algo que ele possa reconhecer como “legítimo” para o mundo das artes).”

Robert Warshow, The immediate experience