Outras coisas

Shutter Island

shutter

Na “Apologia a Sócrates”, há uma referência, mencionada por Platão, de que Sócrates teria considerado que sua missão seria esta: “não tenho cuidado com o que a maior parte das pessoas cuida: dinheiro, administração de bens, cargos militares, sucesso oratório, magistraturas, coalizões, facções políticas. Eu me engajei nada nessa via…mas naquela onde, a cada um de vós em particular, farei o maior bem, tentando vos persuadir a se preocupar menos com o que se tem do que com o que é…”

Sócrates convida ao exercício espiritual interior, ao exame de consciência, à atenção de si, ao “conhece-te a ti mesmo”. Nas palavras do filósofo espanhol Ortega y Gasset, seria conhecer o “fundo insubornável do ser”. E o que é isso?

Além de grande filósofo, Ortega y Gasset era excelente escritor. Com sua técnica estilística, semelhante ao poeta, ele ambicionava resgatar a autenticidade de certos vocábulos do idioma espanhol a fim de tornar evidente seu sentido filosófico. Em 1946, publicou, no primeiro volume da revista El Espectador, o artigo (infelizmente não disponível em português) El fondo insobornable. Para Ortega y Gasset, o fundo insubornável do ser é:

         “o núcleo último e individualíssimo da personalidade que está soterrado sob julgamentos e condutas sentimentais, que, de fora, caíram sobre nós. Somente alguns homens dotados de uma energia peculiar conseguem vislumbrar em certos instantes as atitudes daquilo que Bergson chamaria de “o eu profundo”. De quando em quando, chega à superfície da consciência a sua voz profunda.”

Para Gasset, farsas são aquelas realidades que se fingem de realidade: a verdade do homem é a correspondência exata entre o gesto e o espírito, a perfeita adequação entre o externo e o íntimo. Falsear a realidade é não ouvirmos nosso fundo insubornável:

             “Chamamos de farsas aquelas realidades que falseiam a realidade. Isso supõe que na realidade distinguimos dois planos: um externo, aparente, manifesto; outro, interno, substancial, que se manifesta naquele. A realidade externa tem a missão ineludível de ser expressão adequada da realidade interna, caso contrário é farsa. A realidade interna tem, por sua vez, a missão de manifestar-se, exteriorizar-se naquela, se não também é farsa. Exemplo: um homem que defende exuberantemente opiniões com as quais não se importa, é um farsante; um homem que realmente tem tais opiniões e, no entanto, não as defende nem as assume, é outro farsante.”

Ao amontoarmos nosso fundo insubornável com as ficções que contamos a nós mesmos, ou com ideias que nos contam e que aceitamos acriticamente, por hábito ou em virtude de nossas intenções utilitárias (evitar a dor, maximizar o prazer), tornamo-nos progressivamente estrangeiros diante do espelho – e essa incoerência existencial, para se sustentar, nos obriga a falsear a realidade. Não deixa de ser uma opção preferencial pela loucura – exatamente o que faz o protagonista de “Shutter Island”, de Martin Scorcese. E o que fazemos, muitas vezes, em nossas vidas: negamos nosso “fundo insubornável” ao nos recusarmos ao exame interior, e falseamos nossa realidade e habitamos um mundo de fantasia que nos soterra.

Ortega y Gasset oferece a ferramenta precisa para o diagnóstico de nosso estado de coisas: vivemos um mundo que caminha irrefreavelmente para um simulacro de realidade, cujo estabelecimento, numa espécie de ciclo vicioso perverso, além de depender de nossa ilusão de autossuficiência, reassegura sua validade. Ora, exame de consciência significa vasculhar tudo o que fizemos, por que fizemos – tarefa a que o personagem de Leonardo di Caprio se recusa, voluntariamente. Se alguém é capaz de saber o que fez e porque fez alguma coisa, poderá extrair algo estável, e que servirá de referência em meio ao caos. Se, no entanto, justificamos nossos erros em função de circunstâncias adversas (não foi minha culpa), desfavoráveis (não foi minha culpa), em função das más influências (não sou eu o culpado), estamos, na verdade, arranjando falsos obstáculos que nos impossibilitam de assumirmos plenamente nossas responsabilidades; criamos barreiras entre nossas ações e nossa identidade. Resultado: perdemos nossa liberdade, porque passamos a habitar um mundo aprisionado no pior dos pesadelos, o da impossibilidade da redenção – como nos arrepender do que nos recusamos a possuir?

Essa é a grande lição deste filme: assumir os nossos atos significa assegurar, em bases sólidas, nossa identidade, e também nos abrirmos à possibilidade de sermos redimidos. Caso contrário, arriscamos a perder a nossa alma.

 

Aborto

Um embrião é pessoa ou coisa? Não basta dizer que é somente um “amontoado de células” porque…não somos todos?
Não precisamos recorrer `a religião para pensar sobre o assunto, podemos considera-lo em termos “laicos”. Abortar (ou não abortar) é uma escolha, uma ação. Toda ação depende de crenças. Crenças são horizontes possíveis da expectativa de uma ação (Stephen Tolmin). A partir da crença A, moldo minhas ações de modo B: “Hoje é feriado, se o mercado estiver aberto farei compras, caso contrário deixarei para amanhã”.
Dito de outro modo: acreditar em uma proposição significa moldar deliberadamente a ação em conformidade com essa proposição. Mesmo aquele que duvida de tudo acredita em algo: que nada é crível.
Quando olhamos para um edifício, podemos encontrar suas bases de sustentação; podemos igualmente tentar apreender os fundamentos lógicos que formam o arcabouço de justificativas para as ações: pois, a partir de determinados fundamentos, formulamos horizontes de ações coerentes.
Há duas crenças básicas sobre as quais o abortista erige sua argumentação.
A primeira é a de que o embrião é desprovido de valor intrínseco. A segunda é a de que o embrião é desprovido de valor relativamente `a autonomia da mulher. A partir de uma ou de outra premissa, a extirpação do embrião pode ser justificada da mesma forma que se joga fora a casca de uma banana. Pela primeira crença, nega-se ao embrião estatuto moral; pela segunda, o embrião é visto como paciente moral cujas exigências ou necessidades são, no entanto, limitadas pela soberania da mulher e o destino de seu corpo. Para ambos os casos, a plena imoralidade, que caracteriza o ato de matar uma pessoa, não se estende ao amontoado de células que se desenvolve dentro do útero.
Ao não reconhecer o valor intrínseco do embrião – portanto, ao não reconhecer sua humanidade -, o abortista o iguala a coisas; cascas de bananas não exibem valores por si mesmas. Para sustentar a primeira crença, o abortista alega que os métodos científicos atuais são (e provavelmente sempre serão) incapazes de validar os atributos que asseguram uma natureza humana; sob essa perspectiva, o abortista ignora que a distinção entre aquilo que é humano e o que não é não é da alçada da ciência, mas da antropologia filosófica. Partindo desse pressuposto, o abortista transforma a questão da humanidade do embrião em mera “aposta”.
Ao reconhecer que o valor do embrião está subjugado `a vontade da mulher – “meu corpo, minhas regras” -, o abortista evidencia seu encarceramento espiritual na ilusão de autonomia total, no menosprezo a tudo aquilo que contraria suas vontades. A liberdade individual desestruturada – porque incapaz de reconhecer a existência de uma hierarquia de virtudes – confunde-se apenas com soberania para escolher.
Pensar acerca do que vem a ser a natureza humana, a partir de uma antropologia de circunstâncias, deduzida das duas crenças mencionadas, apequena-se (acovarda-se?) como mera declaração de direitos.

That´s art

A crítica de cinema séria tem resvalado para duas categorias. A crítica estética, que procura autenticar a reivindicação do cinema para uma posição de equivalência entre as artes tradicionais; é uma crítica centralizada nos aspectos técnicos, que enfatiza as qualidades formais do meio e a “autoconsciência” do artista de cinema. E a crítica sociológica, que minimiza ou ignora os elementos estéticos e prioriza a avaliação dos filmes como indicadores de psicologia de massa, ao exercitar juízos de valor não aos filmes em si, mas à veracidade com que refletem fatos sociais.(…) É preciso dizer que tais abordagens negligenciam um aspecto fundamental do cinema, um fato que é ao mesmo tempo estético e sociológico mas também é algo além disso: a experiência imediata de assistir a um filme e responder a ele, como a maioria de nós o faz. Um crítico pode ampliar seu escopo de referências até o limite em que ele puder sustentar, mas me parece quase autoevidente que ele deveria começar com o simples reconhecimento de sua relação com aquilo que ele critica; no centro de toda crítica verdadeiramente bem-sucedida há, sempre, um homem que lê um livro, um homem que assiste a um filme, um homem que olha para um quadro.(…) O crítico sociológico não vai ao cinema, ele pretende investigar um fenômeno social ou psicológico – algo que envolve “outras pessoas”. O crítico estético, por outro lado, pode até estar disposto a reconhecer sua relação com a obra que critica – mas somente após transformá-la em objeto (pois o que ele busca nos filmes é somente algo que ele possa reconhecer como “legítimo” para o mundo das artes).”

Robert Warshow, The immediate experience

The Voice of Poetry in the Conversation of Mankind

“Como seres humanos civilizados, somos os herdeiros, não de uma investigação acerca do mundo e de nós mesmos, ou de um conjunto acumulado de informações, mas de uma conversa, iniciada nos tempos mais antigos e que se prorrogou e se tornou mais articulada ao longo dos séculos. É uma conversação que prossegue tanto em público quanto em privado. Claro que há discussão, investigação e informação, entretanto mesmo que sejam consideradas vantajosas, devem ser reconhecidas como percursos nesta conversação, e talvez não sejam as passagens mais fascinantes. É a capacidade para participar desta conversa que distingue o ser humano do animal, e o ser humano civilizado do homem bárbaro, e não a capacidade para raciocinar de forma convincente, fazer descobertas a respeito do mundo ou idealizar um mundo melhor. Na verdade, não parece improvável que o engajamento nesta conversação (a qual permanece inconclusa) tenha nos dado nossa aparência atual, homens descendentes de primatas que há muito tempo se sentaram para uma conversa tão longa e antiga que desgastou suas caudas. Educação, corretamente entendida, é a iniciação na habilidade e na parceria para este diálogo, na qual aprendemos a reconhecer as vozes, a distinguir as ocasiões apropriadas para afirmações, e adquirimos os hábitos intelectuais e morais apropriados para a conversação. E é a amplitude desta conversação, no fim das contas, que dá forma e lugar para toda voz e atividade humanas.”

The Voice of Poetry in the Conversation of Mankind, Michael Oakshott

Seeds of the Word

De pé, então, no meio do Areópago, Paulo falou:

“Cidadãos atenienses! Vejo que, sob todos os aspectos, sois os mais religiosos dos homens. Pois, percorrendo a vossa cidade e observando os vossos monumentos sagrados, encontrei até um altar com a inscrição: ‘Ao Deus desconhecido’. Ora bem, o que adorais sem conhecer, isto venho eu anunciar-vos”.

Atos dos Apóstolos 17,22-23

“Before sowing the Word, one looks for semina verbi (seeds of the word) already present among the people one seeks to evangelize. The wager is that, once these are uncovered, the Word of Christ will not seem so strange or alien. In the best case, a nonbeliever might come to see that he had, in fact, been worshipping Christ all along, though under the guise of an Unknown God”. (Antes de semear a Palavra, devemos procurar pelas sementes da Palavra. A aposta é que, uma vez descobertas, as Palavras de Cristo não soarão tão estranhas ou esquisitas. Na melhor das hipóteses, um descrente poderá perceber que, na verdade, tem adorado a Cristo há muito tempo, sob a aparência de um Deus Desconhecido)

Seeds of the Word – finding God in the culture, Robert Barron

“A menos que trabalhemos para a renovação da cultura, participando na vida da arte em nosso próprio tempo, vamos assistir à invasão dos bárbaros entrando por portas que nós mesmos demolimos”.

A beleza salvará o mundo, Gregory Wolfe

Mal imaginam que, como gêmeos siameses, conservadores e progressistas mantém uma relação umbilical no menosprezo à cultura pop. Isso ocorreu porque tais disposições, ao ignorar tanto a dimensão da arte que busca o ordenamento da existência quanto seu poder para educar a imaginação, que “nos convoca a deixar nossa personalidade para trás e, temporariamente, vivenciar uma experiência alheia, olhar o mundo com novos olhos” (Gregory Wolfe), instrumentalizaram-na para fins políticos: para a turma à Direita, só a alta cultura importa, porque é ela quem torna seus consumidores seres morais melhores (para não dizer superiores); à Esquerda, só a alta cultura importa porque capacita seus consumidores a pensar por conta própria e concretiza efetivamente a liberdade do oprimido sobre o opressor, esse produtor mecânico de cultura – em outras palavras, somente a alta cultura desafia o status quo. Esse ponto em comum, esse olhar enviesado para a cultura de nossa época, resulta de uma postura elitista e arrogante que acomete todo o espectro político: consumidores de cultura pop são massas que aceitam, indiscriminadamente, tudo aquilo que lhes é fornecido pelas indústrias fono e cinematográficas; consumidores de cultura pop são incapazes de distinguir entre a “boa” e a má” cultura; em resumo, são incapazes de fazer escolhas. Curioso que tanto a esquerda quanto a direita, sob tal ponto de vista, também se encontram na encruzilhada resultante dessa perspectiva: consumidores de cultura pop precisam, não de críticos capazes de desvelar a beleza e as verdades que podem ser encontradas em muitos produtos artísticos, mas de tutores que lhes digam qual a verdadeira arte capaz de redimir. A boa arte, seja qual for, é aquela capaz de articular a abertura à transcendência, e não aquela que se torna ela mesma a Transcendência. Precisamos olhar a cultura pop com olhos caridosos porque se trata da cultura de nossa época; precisamos separar o joio do trigo e não entregar o joio e o trigo para os bárbaros. Como todos os grandes artistas, os de nossa época podem nos ajudar a “descobrir um caminho redentor em direção `a ordem”, especialmente nesta “Babel fragmentada” em antagonismos  que vivemos.

Nesta excelente palestra, realizada em Sorocaba – SP no dia 12 de março, no Mosteiro São Bento, Dionisius Amendola (https://preconceitosdiletantes.wordpress.com/) mostra que a cultura pop não é nem o lodo de relativismo democrático em que tudo importa, nem a lama de futilidades em que nada importa. Aqueles que menosprezam a cultura de nossa época o fazem porque desconhecem completamente o assunto do qual estão a falar.

Bunker do Dio: https://www.youtube.com/channel/UCtIjkxaomS0hqKEzO4PAfTA