Outras coisas

Um ano

No prefácio de seu livro “As feridas de um leitor“, José Castello escreveu:

“Os artigos reunidos neste livro compõem um registro – profunda cicatriz – das feridas que a leitura sempre produz em mim. Ler – se lemos para valer – fere. Arranca nacos do espírito, agita a sensibilidade e desloca pensamentos. Essas marcas nunca cicatrizam por completo. A melhor forma de tratá-las é transformá-las em novos textos, que geram novas leituras, em um desdobramento infinito de escritores e leitores que dialogam e se misturam. Se aqui os entrego ao leitor é, também, para com eles dividir a dor – ainda que mesclada de alegria – que a literatura produz em mim.”

Quando retorno ao primeiro texto que escrevi, no dia 18 de Agosto de 2012, para este blog, intitulado “Exílio e memória“, me lembro dessas palavras do José Castello. A vontade de escrever  não era nova; no entanto, ganhou força somente depois da leitura do livro da Annita Costa Malufe, “Quando não estou por perto“: ferida que se recusou a cicatrizar.

Como Narcisos diante do espelho, atualmente encontramos justificativas para tudo: nossa falta de tempo, nossos fracassos, nossas frustrações. Vivemos a época do espetáculo pelo espetáculo, do louvor ao desempenho, do culto à superficialidade, da indissociação entre público e privado, dos slogans de autoajuda (que transformam a vida em uma microempresa e substituem dilemas morais por frases de efeito), do discurso manipulatório sentimentalóide do marketing e da publicidade, de relativização de valores (morais e estéticos). Bons livros funcionam como antídotos às ilusões que tecemos a nosso respeito. Mas ler exige disciplina, esforço. A leitura ainda é, infelizmente, rara neste país. Recentemente, estudo do IBGE, em quatro estados, mostrou que a leitura ocupa, dos brasileiros, pouquíssimo tempo: em média, 6 minutos por dia – em oposição às 02h 35 min na frente da TV.

Paradoxalmente, proliferam pela Internet blogs a respeito de livros, filmes, música, assim como proliferam “novos escritores”. Nunca foi tão fácil publicar um livro. Como se diferenciar, em meio a tanto barulho? Separar o joio do trigo? Não me tomo por crítico literário ou crítico cultural, não tenho a formação para isso. Os livros, os filmes, a música são algumas das minhas paixões; cultivar uma paixão requer atenção, tempo e dedicação. Não tenho a pretensão de escrever para um público específico. Este blog é para mim mesmo: uma tentativa de construir casas sobre rochas; ao escrever sobre os efeitos que essas paixões tem sobre mim, tento edificar meus alicerces sobre as areias do tempo. E sou grato se, de alguma forma, essas postagens interessarem a mais alguém.

E, como mencionei José Castello no início, termino este texto comemorativo – que, na verdade, não comemora nada – com trechos de sua crônica publicada no jornal Rascunho, edição de Julho de 2013, a respeito do quadro “The poor poet“, de Carl Spitzweg:

“(A pintura) mostra um velho poeta em um sótão miserável que lhe serve de quarto. Um guarda-chuva aberto junto ao teto encobre uma rachadura e o protege da tempestade. Velhos livros, imensos como cães de guarda, se espalham em torno dele pelo chão. Com uma pena, que aperta entre os dentes em uma mistura de fraqueza e fúria, o poeta, mesmo deitado e tremendo de frio, continua a escrever (…) O fogão tinha se apagado e, para aquecer-se um pouco, o poeta nele queima parte dos poemas que acabou de escrever. Sim, ele imola sua arte para não morrer de frio. A poesia o aquece, a poesia o mantém vivo. Ela é o seu sangue. Ela o salva.Objetos dispersos pelo chão, um móvel de canto, uma garrafa e uma bacia completam o cenário de pobreza. Indiferente, o poeta permanece muito concentrado em seus escritos. Escreve não para se exibir – ou enriquecer ou se consagrar –  mas para se salvar (…) Muito útil pensar na tela de Spitzweg nos dias de hoje. Ela deveria estar exposta à entrada de todas as livrarias das grandes avenidas ou dos shoppings. Ilude-se quem acredita que ali entra para comprar, para presentear, para colecionar, para se divertir. Cada vez sinto mais repugnância pela idéia da literatura como status ou como diversão. Livros não são sagrados – vejam os meus, que rabisco sem piedade alguma. Contudo, no mundo em que vivemos, cada vez mais a idéia da literatura como “jóia” (valor) parece mais “razoável”. Quanto vale um “best-seller”? Quantos milhões de exemplares vendeu um livro? É o que se deseja saber – e mais ainda. A literatura, porém, não garante nada a ninguém: nem saber, nem autoridade, nem mestria. Ela não diverte, mas nos adverte. A advertência que nos faz é não só a respeito da realidade que nos cabe viver, mas do lugar que nela lutamos para ocupar.”

Encenação

Respondo aqui publicamente comentário de uma amiga a respeito do texto “Espectador inerte” (leia aqui), pois creio que merece uma pequena reflexão. A questão diz respeito à função de um fotógrafo de guerra e seu suposto comportamento inerte diante do que vê, e de que forma poderia ajudar ou fazer a diferença.

A distância é a marca de um fotógrafo de guerra – seja física (tentar chegar o mais próximo possível da cena, de acordo com o fotógrafo Robert Capa), seja psicológica (o equipamento do fotógrafo pode ser intimidador para os outros e pode servir-lhe de “escudo” ao ambiente em que se encontra); de certa forma isso torna intransponíveis os cenários que fotografa, separando-o do que acontece ao redor. Por outro lado, o documentarista Errol Morris (diretor de “Na linha da morte”, “Sob a névoa da guerra” e “Procedimento operacional padrão”), em entrevista publicada no segundo número da revista de fotografia ZUM, reflete sobre o que acontece na frente de uma câmera:

“A questão é que as pessoas criaram todas essas regras. Porque perceberam, talvez de maneira meio inconsciente, como é fácil ser enganado por uma fotografia. E então criam essas regras para nos proteger, todas essas regras tão conhecidas. Não mexa em nada. (…) E, no final, supostamente, você terá algo verídico. Seguindo essas regras, de alguma maneira espera-se que a verdade esteja ali. Bom, está errado, claro. Porque há aí todos aqueles outros tipos de pressupostos, problemas e confusões. O fato de que existe o recorte e não enxergamos além dele, de nenhum dos lados…”

Em minha opinião, Morris toca numa questão fundamental: a fotografia também é uma escolha moral. Há pressupostos quando se fotografa alguma coisa, pois ao se optar por um determinado quadro, todos os outros foram excluídos; ao se optar por um instante, milhares de outros foram relegados ao esquecimento – mas isso não significa que nunca tenham existido. Até que ponto somos capazes de compreender as intenções de um fotógrafo ao escolher aquela cena em particular – até que ponto suas intenções são, de fato, captadas por suas fotografias? Ao contrário da “realidade,” em que tudo o que enxergamos enxergamos dentro de um contexto – mesmo que em determinadas situações  não tenhamos certeza exatamente sobre aquilo que estamos olhando (olho para a tela do computador enquanto escrevo estas palavras e sei que horas são, sei que faz um calor dos diabos, sei onde estou, sei a quem pertence este computador, sei o que estou a pensar neste exato instante, etc.) –, a fotografia descontextualiza o que vemos. Nas palavras de Morris, elas “arrancam imagens do mundo e nos deixam livres para pensarmos o que quisermos sobre elas”. Esquecemo-nos frequentemente de que, quando vemos uma fotografia, na verdade o que estamos vendo é resultado das escolhas que o fotógrafo fez – vemos aquilo que ele quer. Quanto à intervir ou não naquilo que fotografa, cabe apenas ao fotógrafo – como sujeito capaz de fazer escolhas morais – decidir transpor as barreiras que sua lente projeta para criar ilusões de realidade.